quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Minhas tardes com Margueritte, de Jean Becker


Há filmes pra todos os gostos, pra todas as horas... E pra todo tipo de experiência!

Se o seu coração já se abriu em flor, ou pelo menos teve um vislumbre do que é isso – é dizer – se já experimentou o prazer de vivenciar um amor sadio (que redundância! Se é amor, é sadio! Há quem chame de amor o apego, o medo, a conveniência...), aquele que surge despretensioso, sem exigências e cobranças, sem propósito, sem conceitos, que quando se vê, já é, pleno, forte, firme, profundo e leve, então vai reconhecer a semelhança nessa obra cinematográfica, nessa linda história, nesse encontro entre Margueritte (Gisèle Casadesus) e Germain (Gérard Depardieu). Podemos também chamá-los de “A borboleta” e o “Ogro”, ou ainda “A leveza” e o “Profundo”. Duas faces do Amor, expressas na polaridade desses dois personagens.

           Margueritte representa a fragilidade e a leveza desse sentimento. Germain, a fortaleza (cresceu sem demonstração de carinho, e se tornou a mais pura fonte do amor que lhe faltou).

          Fora isso, essa história nos mostra a beleza dessa totalidade em si mesmos: Margueritte é frágil, porém durável e resistente, tanto pela sua idade cronológica, quanto pela vida altruísta que levou. Já Germain, forte, tosco, mas também uma pluma, levinha e polvorosa, a pousar graciosa nos ombros dos amigos, vizinhos e namorada que o cercam.

      Margueritte tem os livros como sua expressão, representando sua capacidade imaginativa, intelectual e mental. Já Germain, tem seu jardim, representando sua conexão com a terra, o mundo vegetal, não das ideias, mas do sentir, onde o pulsar da vida, a força vital, o “chi”, latente, é mais forte que a expressão extrospectiva da mente intelectualizada, quase exibida.

          A beleza dessa história está no ENCONTRO e na troca que dela surge. Só compartilham o que têm de melhor, porque é só isso que sabem doar. Um livro (uma leitura) em troca de uma caixa de verduras frescas e naturais. A MENTE (neste caso, situada em seu devido lugar) em uma conversa amistosa e harmoniosa com o CORAÇÃO. Como numa dança, que no seu rodopio intenso, se torna um vulto único de partes inseparáveis, formando um TODO.

      Vale aqui uma observação relevante: a beleza de nosso “Ogro” estaria em sua ignorância, ou no seu pouco avanço intelectual? Bem, não o vi como um ser de inteligência limitada, talvez um engano daqueles que se acham espertos (fica aqui uma recomendação: leiam “Das vantagens de ser bobo” de Clarice Lispector. Imperdível!). O filme mostra um bloqueio criado na infância, uma crença tola de que ele era limitado, consequência de sua falta de sorte em ter um professor insensível (um tipo grave de limitação), incapaz de farejar o caos que esta criança vivia em casa, e as situações de humilhação que sua mãe e seus parceiros amorosos o submetiam, o que fazia ele se recolher ainda mais, criando um complexo de inferioridade, uma baixa estima, uma crença equivocada de que ele era burro. A riqueza cognitiva que ele demonstra durante as leituras de Margueritte nos mostra um homem acima da média no quesito “enxergar alguns palmos à frente do nariz”.

         É verdade que a ignorância na vida de Germain lhe impõe limitações, um desfrute reduzido da vida. Se lhe poupa dissabores, igualmente lhe rouba a delícia do entendimento pleno. Com a ajuda de sua amiga anciã, ele rompe lentamente esse véu da ignorância, e um mundo começa a se descortinar diante dos seus “olhos”. Veja sua alegria ao descobrir que seu amigo Jojo “the cook” é assim chamado porque cook significa cozinheiro, ou quando ele descobre palavras novas num velho dicionário. É um processo que lhe dói (veja quando ele resolve devolver o dicionário à sua antiga dona), mas que não tem volta, porque também lhe abre horizontes, lhe expande a consciência.


         Isso não deixa de ser uma grande lição, nos mostrando o que é o “caminho do meio” (nem uma apologia ao "saber viver” do homem simples e ignorante que vive à margem da sociedade, nem a crença estúpida de que, quanto mais instrução, mais sábios seremos).

      É no RELACIONAR-SE que se dá a completude. Ouvi uma vez que “Nós nos curamos no ENCONTRO. Ninguém cura ninguém. Ninguém transforma ninguém. Ninguém se cura sozinho”. De certa forma, entre Margueritte e Germain se dá um casamento, de alma, é certo! Mas um casamento. Onde um mais um não são dois. Onde se experimenta a trindade. Saem ambos modificados, potencializados, mais plenos. Onde a luz de um, ilumina a sombra do outro. O que falta em nosso Ogro, é o que sobra em nossa Borboleta – conhecimento! O que falta à Margueritte, é o dom maior de Germain (o cuidado, a amizade verdadeira e desinteressada). Veja: um lê, o outro escuta. Simples assim!


        Se você acha que eu estou viajando (risos), assista ao filme.

        Que esse release te caia como um convite para viver alguns minutos de doçura e leveza, em tela!

        Acrescento aqui alguns detalhes que não seriam legais passarem despercebidos:


ü  “... eu nasci de uma história de amor, como todo mundo” (Margueritte); “Não! Tem gente que nasce de um erro” (Germain);

ü  “Entre eu e minha mãe, a distância está na cabeça” (Germain);

ü  “Escutar bem é também ler” (Margueritte);

ü  “Não é bom ser tão amado numa idade tão tenra. Isso cria maus hábitos. Nós ansiamos, esperamos, criamos expectativas. Com o amor materno, a vida nos faz, na aurora, uma promessa que não se cumpre. (...) Depois, cada vez que uma mulher toma você nos braços e o aperta junto ao peito, são apenas condolências. Voltamos sempre para uivar sobre o túmulo de nossa mãe, como um cão abandonado” (Leitura de Margueritte sobre o livro de Romain Gary “A promessa da aurora”);

ü  Se uma criança não recebe amor na infância, terá que aprender mais tarde, não?” (Margueritte);

ü  “Minha vista está morrendo. Não se opera a morte” (Margueritte);


quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Foi apenas um sonho (Revolutionary Road), 2008 - Direção: Sam Mendes





Esse filme toca em uma frustração muito comum, porém muito camuflada: a de se conformar, de se moldar, de atender um modelo de vida padrão e medíocre, que se conforma em nascer, crescer, trabalhar, casar, ter filhos, casa própria, envelhecer e morrer – tudo isso sem muitos riscos, sem grandes entusiasmos, sem tesão, sem DHARMA. A frustração de calar uma voz interior que anuncia, grita, exige que a vida seja mais que isso, que proclama que ela é única, que não tem receita, que a nossa felicidade provavelmente está nessa busca que nos faz expandir a partir da vivência de nossas potencialidades. Ouvi-la pode ser um incômodo e, às vezes, preferimos acreditar nada acontecer. Mas, se a ouvimos tão intensa e desesperadamente, é preciso CORAGEM para segui-la.

April e Frank formam o típico casal aparentemente perfeito, classe média dos anos 50. Tudo parece correr como deveria, porém logo April perceberá que não se sente feliz. Ela não se conforma em viver pela metade, uma vida opaca. Quer seguir essa voz interior, pois se sente infeliz ao abafá-la. Vê, como em um espelho, seu marido fazendo o mesmo: desperdiçando a potencialidade de seu ser. Como uma criança que esperneia, grita, se debate revoltada diante do castigo que lhe é imposto, ela luta em sair desse espetáculo maçante que encena uma família americana padrão. No afã de escapar dessa armadilha social, April acredita que a solução está fora – uma mudança de país, deixando pra trás casa própria, trabalho medíocre, vizinhos curiosos, nação. Convence o marido, Frank, que em Paris serão felizes, realizarão seus sonhos juvenis.

Vivendo essa ilusão, cuja solução se resume em mudar de “ares”, vivem dias de extremo entusiasmo com os preparativos: anúncio de demissão no trabalho, aquisição de passagens aéreas, preparação dos filhos, despedida dos vizinhos. Tudo isso gera uma inveja alheia (entre vizinhos e colegas de trabalho), pois deixam pistas evidentes de que todos sofrem da mesma doença, a NORMOSE * (patologia da normalidade).

A vida então flui deliciosamente até que começa a se manifestar a “corrente do medo”, o boicote, que nos faz vacilar, nos faz tremer e duvidar de, até que ponto queremos nos atirar rumo ao desconhecido e sem garantias. Isso nos lembra a Jornada do Herói, de Joseph Campbell – o chamado, as provações, a superação e a conquista de um novo e mais amplo estágio de consciência. Pena que nessa história os personagens principais não superam as “ilusórias” provações.

Uma tentadora proposta de promoção no trabalho e uma gravidez acidental serão, nesta história, as “provações” que terão que superar. Desculpas inconscientes para justificar uma acomodação vergonhosa (afinal, já se reconheceu a voz interior) e sem riscos a uma vida sem graça e previsível. É o preço que se paga por não lutar pela felicidade.

Mas até aqui não há nada de tão incomum ou espetacular que fizesse desse filme uma obra marcante, a não ser a atuação brilhante de Leonardo DiCaprio e Kate Winslet.

O que torna esse filme um cinco estrelas, digno de entrar para a lista dos melhores filmes de todos os tempos, é a forma como é deflagrada toda essa trama inconsciente de boicote à possibilidade de ser feliz – a aparição daquele que vai apontar de forma transparente e lúcida o mundo de ilusões em que os personagens estão imersos. Esse papel caberá a John, o filho “louco” dos antigos proprietários da residência do casal principal, que acaba de sair de uma clínica de recuperação. Em uma cena brilhante que se dá em volta da mesa de jantar dos Wheeler, John, com seu total descompromisso em atender os padrões de comportamento social, curado da normose que nos priva de viver a autenticidade de nosso ser, é o responsável por desvelar o boicote no qual o casal está se infligindo.  É o responsável por deflagrar o pseudo impedimento que uma gravidez não planejada pode ser para a mudança tão desejada quanto temida. Nesse caso, o “louco” é aquele com o dedo em riste, apontando ao casal seus medos, suas fraquezas, que seus fantasmas não passam de uma sombra de si mesmos. Vai além, mostrando também a frustração e a raiva contidas que cada um carrega ao projeta-las no parceiro, num jogo vicioso de culpar o outro por sua própria infelicidade. Isso fica claro já numa das primeiras cenas do filme, quando o casal está voltando de carro pra casa após uma estréia teatral infeliz de April nos palcos. Vê-se claramente uma estratégia comum entre os casais, mas pouco eficaz, em que um tenta fazer o outro se sentir culpado, na expectativa infantil de ter sua própria dor amenizada. John personifica o grande intruso, inconveniente, que ao desfazer os nós que justificam a inércia dos Wheeler, gera mal estar e desconforto.

Esse acontecimento sela uma situação que não tem volta. Coloca o casal em uma encruzilhada: ou se ajusta/aperta mais a máscara de casal perfeito e realizado, classe média, conformado; ou se abre definitivamente para a força vital do coração, que empodera o ser e o impele a buscar corajosamente sua felicidade.


Infelizmente Frank se acovarda, se acomoda, se esconde no papel que lhe é familiar e seguro. Já April, parece apenas prorrogar o grande dia. Parece decidida a “preparar o terreno” para a esperada mudança que virá a médio prazo. Digo, parece, porque tenta solucionar o “problema” da gravidez se arriscando num aborto solitário e domiciliar. Infelizmente sua história é interrompida com o agravamento do procedimento abortivo que a leva à morte. Triste fim. Uma jornada interrompida e dolorosa.  Porém, dor maior de todas é aquela de Frank. Uma dor por não tentar, por se conformar, por fingir não perceber o que nunca esteve sanado – a ferida aberta. Uma dor que não vislumbra o seu fim. A dor do QUASE, do chegar perto e recuar. A dor de ser FRACO.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

O Amor já te despertou? Sobre o filme "As mulheres do sexto andar" (Les Femmes du 6e étage) – de Philippe Le Guay


Pode um HOMEM chegar à meia idade sem se lembrar de qual foi a última vez que fez algo movido pela paixão? Movido pela escolha autônoma e legítima do seu coração? Este é Jean-Louis Joubert!

Pode uma MULHER do campo, no afã de atender as supostas expectativas de um homem citadino e de uma sociedade burguesa, esquecer-se de sua essência caipira/camponesa, fundamental para mantê-la centrada e em harmonia com seu próprio ser, de posse do seu poder criativo? Esta é Suzanne!

Pode uma IMIGRANTE deixar para traz sua história, suas raízes, sua forma de viver cooperativa e fraternal, devido à necessidade de “ganhar a vida” em outro contexto – estrangeiro, insalubre e explorador? Esta NÃO é Maria Gonzalez!

Eis a diferença entre os homens!

Uns pagam com sua felicidade na proporção em que se distanciam de sua essência, suas raízes, suas memórias celulares primeiras. Outros, apesar das adversidades, se mantêm fiéis a si mesmos, e por isso exalam o perfume da flor mais cheirosa, o frescor da manhã mais amena, as cores da primavera mais tropical. Estes últimos são capazes de despertar aqueles que adormecem sob máscaras que não lhe são próprias.

A empregada doméstica Maria González desperta o patrão Jean-Louis, homem adormecido sob a máscara do burocrata francês, cuja vida morna e regrada lhe escorre pelos dedos sem que se dê conta da eternidade de cada momento. É preciso que algo sublime aconteça para que ele reconheça o brilho dos olhos de Maria e suas conterrâneas, a felicidade sem causa que contagia todo o grupo de mulheres que moram no precário e apartado sexto andar, o estado de presença absoluto de cada uma daquelas forasteiras, primeiramente reconhecido e apreciado em Maria, ao cozinhar seu ovo até o ponto exato ou ao impor um salário à sua altura. Gestos e posturas simples, mas que movimentam uma energia cheia de vida, latejante, que o faz querer viver plena e profundamente.

Imagina um homem de meia idade que, de repente, se dá conta que a vida pode ser e é muito mais?! Muito mais que a rotina do café da manhã predito, do ir e vir do trabalho, da realização de um lucrativo contrato financeiro, da ampliação da carteira de “bons” clientes. Que uma vida concomitante, complementar e latejante acontece em nosso interior quando percebemos que nossos poros se dilatam; nosso sangue não contenta em apenas circular pelas nossas veias, quer viajar, derrapar, testar os limites desse túnel venoso; quando nossa pupila cresce e capta cada nuança e cor ao redor; nossas narinas farejam odores até então jamais percebidos; Entramos em pleno estado de beatitude. Que bela cena de Jean-Louis com ele mesmo, num quartinho pequeno e esquecido, uma cama, um criado e um vinho. E a vida pulsando deliciosamente na teia subatômica de seu corpo. Nada é capaz de lhe tirar a paz proporcionada pela descoberta de ser o que se é, este resgate e apropriação de sua própria alma. Este novo Jean-Louis começa se apaixonando por Maria, depois por ele mesmo, e em seguida pela vida toda à sua volta, até a borda. Nutre-se do bem estar que advém em ajudar o próximo, em atender quem realmente precisa, em se fazer importante para alguém. Reconhece-se realmente EXTRAordinário, alguém atento em não cair na armadilha mortal da rotina.

Suzanne, sua mulher, não tarda perceber que seu velho e decifrado marido está a morrer e que um novo homem se deita ao seu lado. Esse homem, renascido, lhe faz recordar uma jovem camponesa, autentica e feliz, que um dia existiu, despertou o interesse de um jovem francês da cidade, e que, por supostas exigências externas, foi colocada no baú das memórias intocadas para que pudesse surgir uma esposa alienada, fútil e sociável, que atendesse a demanda de uma sociedade burguesa. Dá-se conta que no afã de atender supostas expectativas do marido acabou perdendo aquilo que lhe era mais raro e precioso, algo que é premissa para se fazer verdadeiramente amada, sua Autenticidade.

Não sabemos que fim levou Suzanne, mas é bem possível que reaprendeu a cuidar de seu próprio jardim, atraindo lindas borboletas.



Quanto a Jean-Louis e Maria, confiem em mim, viveram felizes para sempre (lembrando que o “sempre”, sempre acaba)!


quinta-feira, 14 de agosto de 2014

“Civilidade é o que lhe impede de chegar ao sentimento”

Sobre o filme “Pedalando com Molière” (“Alceste à bicyclette”)
Filme de Philippe Le Guay - 2013

Um respeitado ator chamado Serge Tanneur, desiludido com o superficial e dissimulado mundo artístico, decide abandonar os palcos e se isolar na Ilha de Ré, uma pequena ilha francesa situada no Golfo da Biscaia, na região de Poitou-Charentes.

Sua pacata rotina é interrompida com a visita aparentemente despretensiosa de Gauthier Valence, ator de televisão popular, muito assediado pela mídia e fãs. Gauthier o convida a, juntos, montarem uma adaptação de O Misantropo, de Molière. Serge lhe propõe o desafio de ambos ensaiarem a primeira cena da peça, nos papéis de Philinte e Alceste, e só depois de cinco dias de ensaio, dar uma resposta sobre sua participação. Gauthier aceita o desafio e então, os jogos de poder e manipulação manifestos no texto teatral começam a ser “metaforeados” pela luta de egos entre esses dois artistas.

Esta seria uma boa sinopse da obra cinematográfica. Todavia, proponho ainda outra, mais adequada à proposta inicial deste blog. Seria assim: trata-se do confronto de duas máscaras - a do “bom moço, bem adaptado” e a do “rebelde incompreendido” que, uma vez polarizados e confrontados, têm a oportunidade de caminharem rumo ao centro dessa grande linha que é a auto realização, onde as máscaras já não nos causam dores e infelicidades.

Perdoem-me leitores a antecipação do final, mas... Preciso dizer que isso não vai acontecer, afinal é um processo muito doloroso no qual exige coragem. Acabam ambos, por fim, reforçando ainda mais suas máscaras e cerrando as portas que poderiam leva-los a descoberta do que está incomodamente encoberto.

O primeiro personagem, Gauthier, é um sujeito evidentemente vaidoso, que está disposto a pagar, com sua falta de privacidade e tempo, pela imagem de bom moço, queridinho do público, o artista bem sucedido. Essa máscara, de pessoa bem educada, acessível, gentil, galanteador, lhe rende caches vultosos como ator de série de TV. Sempre “bem intencionado”, sai à procura, inconscientemente, do antídoto que vai lhe fazer confrontar com sua própria sombra, aquilo que ele não ousa enxergar, o antigo colega de palco, o tarimbado ator Serge Tanneur. Aparentemente desprentencioso, Gauthier chega à casa do colega como quem nada quer: “Estava passando e...”. Serge, desconfiado, esperto, deixa o tempo rolar até ver onde o inesperado visitante pretende chegar. Não tarda muito para Gauthier revelar sua intenção em propor a remontagem da adaptação de Molière. Serge, calejado do efeito devastador que tem “as segundas intenções humanas”, homem safo, entra no jogo de manipulação e promete dar-lhe uma resposta só ao cabo de 5 dias de ensaio. Gauthier suspeita do início da “partida”, porém, sedento e refém de seu próprio plano, aceita a condição à contragosto, já desconfiando vítima de sua própria presa.

Boa parte do filme acontece no desenrolar dos ensaios e estes são os momentos mais férteis do filme, uma vez que se instala um grande “palco” (ou arena!) para o duelo de egos, onde peça escrita e realidade se confundem graças à semelhança entre os personagens da ficção e os reais: Alceste e Fhilinto; Serge e Gauthier.

Gauthier, em seu aspecto falseado, ao se confrontar com o autêntico Serge (autêntico, mas talvez igualmente infeliz) sente, a cada ensaio, a pressão de seu ser mais íntimo, ansioso por ser revelado em sua essência, em mostrar o que realmente lhe “cae bien”, mas que sua energia direcionada ao pesado papel de bom moço lhe impede de experimentar. Até que chega aquele momento inevitável, e tão esperado, de explosão, onde sua pesada máscara deixa brecha para revelar um homem medroso, impotente e incompleto. E isso vem à tona em um momento de fúria provocada pelo ato recorrente de seu colega em corrigi-lo por mitigar uma palavra de sua fala teatral. Serge lhe alerta que “Gritar não é poderoso” e que sua civilidade é o que lhe impede de chegar ao sentimento.

Quanto ao Serge, é possível dizer que no fundo ele se julga uma vítima do sistema, quase como uma criança que se sente incompreendida. Julga-se tão diferente e especial, que não lhe convém viver entre os normais imorais. É um pária social, um incompreendido e desiludido com a humanidade. Se julga muito autêntico e leal, vítima de uma sociedade corrompida e fútil. Talvez por essa razão não deseje colocar mais uma criança nesse mundo e quer se submeter a uma vasectomia.

Até que entra em cena Francesca, uma linda italiana recém separada, que passa por um momento de profunda dor. Francesca e Serge compartilham da mesma amargura e não tardarão em descobrir afinidades já no segundo encontro, quando ela lhe oferece uma carona, por acaso, justamente na hora em que Serge espera por um transporte público que lhe levará rumo ao hospital, onde se submeterá à tal vasectomia. É neste momento, dentro do carro, que o cupido lança suas flechas em direção ao coração de ambos e, neste instante de afrouxamento das amarras que só o amor é capaz de provocar, que ambos comungam juntos uma bela música italiana – Il Mondo. O Serge que chega ao hospital já não é o mesmo que saiu de casa naquela manhã. Esse novo Serge vê um quê de esperança na humanidade. Para ele, essa falta de esperança, simbolizada pelo ato de se vasectomizar, já não faz sentido. Serge foge, literalmente, da mesa de cirurgia. Este rasgo de felicidade, que faz tudo vibrar e se iluminar, não tardará em desaparecer pois, se é verdade que atraímos aquilo que cremos profundamente, se é verdade que muitas vezes nos boicotamos ao não reconhecer nossa vocação primeira para o amor e em sermos a própria felicidade, Serge novamente irá se decepcionar, e recuará à sua redoma, talvez agora mais estreita, mais apertada, mais sufocante, porém um lugar sem riscos e já conhecido. Na última cena do filme temos de volta aquele homem rijo, e talvez, ainda mais amargo.

Vale aqui minha reflexão final: Serge, tal qual Gauthier, expressa uma grande vaidade, todavia sob o viés da rebeldia, da intolerância e não pactuação com uma sociedade vil. Lembre-se, logo no início ele se auto define a partir de um comentário sobre o problema do mau cheiro vindo da fossa em seu quintal: “Não gosto de ser conectado. Gosto de ser independente”.


Sob a ótica de quem busca algo mais, o filme tateia um inconsciente ávido por se fazer revelado, com personagens que sugerem a vasta dimensão da qual somos feitos e, “desbaratinadamente”, não nos damos conta.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Sobre “Ela” (filme de Spike Jonze, 2013)


Há algum tempo que estou com esse filme martelando em minha cabeça. Uma vontade danada de escrever sobre ele, de registrar e compartilhar minhas impressões. Talvez esse tempo entre assistir ao filme e escrever sobre ele seja bom, pois as ideias vão se assentando e ficando apenas aquilo que foi mais significativo – o essencial. Falar sobre o essencial – seja lá do que for - me parece algo interessante. Não sobra muito para especulações. Então, vamos lá!

Bem, “Ela” é um daqueles filmes nada (in) críveis, mas que te prende a atenção do início ao fim. Para mim, e talvez só para mim, é um filme que fala sobre a materialidade das coisas, inclusive dos sentimentos, e a densidade intrínseca a ela. Claro que aqui estamos falando de uma matéria muito mais sutil – o sentimento. Mas é sobre esse ponto de vista que o sentimento é abordado.

No filme, o personagem principal se apaixona pela voz de um sistema operacional. E é essa ausência de corpo, de imagem pré-definida que nossos olhos captam e nossa mente imediatamente julga, que permite um lapso, um “gap”, uma brecha, um “time” para a dança livre da imaginação humana. E claro, se falamos de nossa particular capacidade de imaginar, tocamos em nosso potencial criativo que, por sua vez, vai se alimentar de nossas crenças, sejam elas particulares ou coletivas.

A falta de um corpo físico para se tocar, se cheirar, se lamber, se olhar, (não digo ouvir, porque é o que resta ao personagem principal), enfim, essa pouca densidade para se reconhecer com todos os nossos sentidos e gerar nossas emoções, dá espaço (ou dá um salto) para o SENTIR, para o despertar do amor.
Não é à toa que a tentativa de materializar esse ser amado, contratando uma garota “real” para representar o objeto de amor, é um fracasso, pois a beleza, o fundamento daquele amor está justamente nessa escassez de materialidade (só lhe resta uma voz). Trata-se de amar o próprio ato de amar, trata-se de não dispersar energia com preocupações e julgamentos acerca do superficial, do efêmero. Não se ama o outro, se ama o próprio ato de amar, se ama aquilo que nos falta, ou melhor, aquilo que não reconhecemos em nós, aquilo de que somos feitos e não sabemos. Se ama porque se é amor (embora não se saiba amor).

Esse filme sinaliza o que é óbvio para poucos e desconhecido para muitos: que o que vemos e vivemos - aquilo que nos é externo – é uma interpretação particular a partir daquilo que somos intimamente. É dizer, não importa o outro, importa como eu vou ao encontro desse outro, como eu o codifico / interpreto/ reconheço. Nos mostra que o amor nasce e morre no próprio amante, às vezes impulsionado pela sua carência (“mala suerte” de muitos), às vezes pela sua abundância (sorte de poucos).

O frescor, a leveza do amor que se mostra nesse filme pode ter muitas explicações, mas certamente, a escassez de matéria é uma delas. Essa “falta” não deixa brecha para o julgar (ela é feia, ela é bonita, ela é gostosa, ela é gorda, ela é magra, ela tem bom gosto, ela parece isso, parece aquilo, ela tem bom emprego...) e fica-se na essência do que é dito e sentido, fica-se mais próximo ao conteúdo das coisas, sobra atenção para observar o que se passa por dentro de si. Sobra atenção para se perceber os poros dilatando, os pulmões inflando, a consciência expandindo. Sim, a Consciência, afinal, esse amor nos leva para o ponto do observador, que vê panoramicamente e que é capaz de rir da constatação de que se está falando com um sistema operacional. Loucura? Claro! Que delícia de loucura! É a própria vida pulsando. O completo descompromisso com a racionalidade. O racional dando espaço para a imaginação, sabendo-se que é ela própria a senda para o amor.

É quando entra o outro, ou os outros, com seus respectivos corpos/pesos (afinal ele descobre que centenas de milhares de pessoas estão simultaneamente se relacionando com sua Samantha – a voz do sistema operacional) que a coisa toda começa a minguar. O foco desloca para fora, quando o personagem principal se dá conta que “aquilo” que ele julgava ter, possuir, não é só dele, não se passa apenas com ele, que ele não é o centro do mundo, o filho único de Deus.  É ai que o outro, o que está fora, entra. O outro lhe toma espaço, parece lhe subtrair aquilo que estava dentro. É o outro nos trazendo para a “realidade”. Não é mais possível rir da irracionalidade aparente de se apaixonar por um sistema de informática. Perde-se o humor, perde-se o amor. Não há mais espaço para a imaginação.

É o outro mostrando o nosso limite, a nossa borda. Agora um “outro” mais real, mais denso, não apenas uma voz. Aí a coisa fica um pouco mais complicada. É mais difícil amar todas essas “vozes”. Ora, até então a voz única e amada não tinha sido capaz de estabelecer esse limite. Ela (a voz) era quase uma extensão do amante. Amante e amado - uma coisa só! É quando se fragmenta que a coisa desanda. É essa materialidade, percebida fragmentada (eu, você) que nos leva a um amor limitado, egoísta, diminuto, onde um só ganha quando o outro perde, onde o sonho do outro não pode coexistir com o nosso.


Esse filme fala dessa fragmentação, dessa ilusão decorrente da nossa percepção limitada da matéria, da imaginação e criatividade humanas, da nossa forma às vezes capenga, às vezes sublime de amar.